“Nossa mente às vezes age, às vezes sofre. Na medida em que tem idéias adequadas, ela necessariamente age. Na medida em que tem idéias inadequadas, ela necessariamente sofre” (Ética, Livro III, Proposição 2). Com esta frase, Spinoza resumiu em poucas palavras a concepção de que razão e emoção estão inextrincavelmente ligadas. Dessa observação nasce a conclusão de que nossos projetos de organização precisam levar em conta o sentido que queremos imprimir à realidade e uma visão correta de como o mundo, as pessoas e os grupos efetivamente funcionam.
Nem a realidade do sentido, nem a realidade da vida, entretanto, são simples. A consequência é que a complexidade dos jogos pessoais e sociais e a desinformação sobre eles frequentemente geram erros e dissipação de tempo e energia. Propomos que o estudo e o conhecimento desses jogos, incluindo o auto-conhecimento e o aprendizado de como aprender, são necessários para qualquer processo de formação. Propomos também que esse conhecimento deve sempre associar-se à dúvida, gerando propostas de verdade que levem em conta todas as ambiguidades, trade-offs, contradições e paradoxos que caracterizam nossa vida. Esperamos criar em cada um o hábito de sempre rever e expandir o seu repertório, aperfeiçoando-nos como sistemas de aprendizagem e criadores de cultura.
A elaboração de uma teoria que faça jus a esta visão e à realidade social também não é trivial. Primeiro, porque todo núcleo de organização, desde o indivíduo até a família ou a empresa, depende da integração de jogos e elementos complexos, que precisam ser analisados sob várias perspectivas – amor, poder, interesses, cooperação, conflito, o indivíduo, o grupo. Segundo, porque ao nos focar em qualquer uma dessas variáveis estamos, necessariamente, cegando-nos para as outras dimensões que também fazem parte do problema. A razão é indispensável para que ataquemos o problema da organização, mas a “verdade” é insuficiente como ferramenta para a ação e para o pensamento.
Nossa teoria segue a tradição de uma longa linha de pensadores, que desde Nietzsche, Weber e Geertz até Simon, Kahneman e Thaler estudam as limitações da racionalidade e a inexorabilidade deste perspectivismo. Dentro desta visão, buscamos mitigar o reducionismo das disciplinas particulares levando em conta as perspectivas da psicologia, da sociologia, da neurociência, da filosofia, da antropologia e das humanidades. Isto implica em aceitar que nossas idéias só são adequadas quando consideram as várias possíveis interpretações com que reduzimos o real aos nossos modelos sobre o real. A grande tarefa de organização transforma-se, então, em um exercício de sabedoria e de arte, um jogo que como o jazz obedece simultaneamente ao desígnio, ao improviso e à competência de lidar com o improviso (Weick, 2009. Organized Improvisation).