A palavra Praxis denomina uma das três classes de conhecimento descritas por Aristóteles. O saber teórico, theoria, tem por objeto o conhecimento, a especulação e a contemplação do pensador que, como o espectador que nos jogos e festivais públicos observava o espetáculo, estuda-o sem interferir no que vê. O saber poético, poiesis, liga-se especificamente ao ato de “fazer”, a todas as formas de criação e produção em que um projeto pré-definido determina a direção da ação. A praxis, finalmente, inclui as ciências que têm por objeto a ação em si: – a ética, a economia e a política, os tipos de saber nos quais o resultado não depende apenas do que planejamos, mas de como manejamos o fluxo e refluxo entre nossas metas, o acaso e o desenrolar de cada situação dependendo da reação de todos os participantes.
A escolha pelo nome Praxis reflete nossa premissa – arbitrária, como todos os fundamentos – de que o saber prático é superior às outras classes do conhecimento. Partimos do princípio de que, na medida em que nossas ações dependem da linguagem, qualquer atuação social nos insere no centro do grande sonho humano, o universo simbólico de significados onde criamos nossas ficções de sentido. Precisamos conhecer o que queremos mudar e planejar o que fazer para então agir, organizar. A praxis é prioritária porque representa o local de integração e confronto entre a racionalidade da theoria ou da poiesis e as mudanças de curso requeridas pelo atrito entre a idéia e o mundo, a negociação, sempre política, do sentido que queremos dar à vida.
Nossa escolha, portanto, pressupõe também uma hierarquia ontológica que relativiza o peso da linguagem como o ingrediente que daria ser à vida humana. Pensamos que a realidade é superior às teorias que tentam explicá-la, uma vez que estas precisam reduzir o real aos seus modelos para produzir suas explicações; que as idéias e ideais que inspiram a produção poética são igualmente limitados, porque baseiam-se na linguagem de que se fazem os modelos; e que a razão é uma ferramenta necessária para negociar a vida, mas insuficiente para capturar a sua complexidade. Por outro lado, pressupomos que a linguagem, a idéia e o símbolo são parte essencial da existência. “Todas as ciências do espírito, até mesmo as ciências do vivente, têm de ser necessariamente inexatas, precisamente para permanecerem rigorosas” (Heidegger, 1938). Subvertemos, assim, as ilusões de ordem que herdamos do primado da razão e restauramos a visão da organização como desígnio, arte e criação, construção emergente que se faz como uma praxis na interface da linguagem, da emoção, do sentido e da ação.